A alta-costura da Dior e os novos tempos

07.07.20 | Semanas de Moda Vídeos


 

Christian Dior Fall 20/21 Couture
Nesta atípica apresentação da coleção de alta-costura da Dior, a estilista italiana Maria Grazia Chiuri opotou por mostrar suas criações através de manequins em miniatura. Em meados dos anos 40, após a devastação da Segunda Guerra Mundial era assim que os grandes costureiros franceses apresentavam suas coleções, tendo em vista a escassez de matéria-prima e a recessão que diminuria significativamente o numero de clientes dispostas a pagar por uma roupa feita sob medida. Foi neste período, inclusive, que Christian Dior criou o chamado new look através de sua Bar Silhouette, que injetou novamente o glamour dos tempos pré-guerra na moda e trouxe novo fôlego de otimismo e de escapismo para o mundo que se recuperava de tamanha tragédia. Não à toa, Maria Grazia buscou reinterpretar a elegância do período inicial da maison Dior, com vestidos extremamente trabalhados, impecáveis conjuntos de materiais nobres e densos, recortes e modelagens mais conservadores e o perfume ultra feminino e sofisticado típico do final da década de 40. Além dos manequins em tamanho de boneca, a coleção foi apresentada ao mundo através de um curta-metragem de ares surrealistas intitulado Le Mythe Dior, dirigido pelo italiano Matteo Garrone. A película tem atmosfera fantástica, cheia de seres mágicos atribuídos à natureza, como ninfas, sereias, fadas e mulheres saídas de conchas. É de fantasia que precisamos agora.

 

 

 

 

 

Alta-costura democrática
Certamente esta é a temporada de alta-costura mais democrática de que se tem notícia. Por mais que existam as transmissões em tempo real feitas pela própria marca ou pelos convidados que atendem ao desfile, existe a abismal diferença entre presenciar um show dessa categoria in loco e através de uma tela. Nessa temporada, no entanto, todos tiveram o mesmo acesso às apresentações, recebendo ou não um convite personalizado. Imaginar que grandes nomes da moda estavam dentro de suas casas, escritórios e ateliês assistindo ao desfile da Dior (assim como qualquer outro desfile dessa semana) nos coloca no mesmo patamar desses espectadores, com única diferença da peculiaridade do olhar. Portanto, por mais exclusiva que seja uma semana de moda de alta-costura, dessa vez houve a rara diferenciação pela igualdade de acesso.


 

 

 

 

 

 

 

Escapismo
Em tempos de isolamento, incertezas, recessão e tristeza, qual é o papel de uma semana de alta-costura? Certamente esta é a temporada mais exclusiva do circuito fashion e ainda mais exclusiva quando pensamos que apenas uma parcela ínfima da população tem acesso de fato ao que é apresentado ali. No entanto, assim como a moda representa a realidade do tempo presente, também tem o papel lúdico da fantasia. Nossos olhos e nossos ouvidos se interessam por tudo que é belo. Isso é fato. Seja no campo das artes, da música, do cinema e, obviamente, da moda, o que consideramos belo nos proporciona uma forma de escape da realidade, por mais cruel que ela possa parecer. Assim como no período da Segunda Guerra, onde Christian Dior propôs uma nova onda de otimismo através de criações que se diferenciavam pela elegância que fora perdida na obscuridade (mesmo que estivessem fora da realidade para milhares de pessoas), as criações couture tem esse papel importantíssimo e cada vez mais necessário de nos fazer sonhar, de estabelecer uma conexão com o belo. Ignorar a importância de se ter contato com o fantástico (e aqui nós poderíamos inserir qualquer tipo de “fuga”), mesmo que isso esteja fora do nosso alcance, é se prender à monotonia do conformismo e das limitações. Se permita sonhar.

 

 

 

 

 

 

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