fall 21 COUTURE | o luxo clássico e a relevância da semana de alta-costura

15.07.21 | Lifestyle Moda Semanas de Moda


 

Em um período tão desafiador é normal e esperado que nos questionemos sobre prioridades, relevâncias e o papel das coisas em nossas vidas, seja no âmbito subjetivo ou para a coletividade. Nesse sentido a semana de alta-costura – super exclusiva e feita para uma parcela ínfima da população – pode parecer deslocada da realidade, ainda mais da nossa realidade atual, mas a gente pode fazer um exercício e pensar um pouco além disso. Para nós é óbvio mencionar o papel escapista que a moda performa e que é de extrema importância para períodos em que um alívio mental é necessário. Ainda mais quando tratamos de alta-costura, onde a função imaginativa da moda é ainda mais potente, nossa condução para um lugar de escapismo através da observação e da admiração, tanto em relação à técnica quanto à beleza das criações, é inevitável. Nesse contexto ainda temos o desenvolvimento criativo dos próprios estilistas. A temporada de alta-costura é o ambiente fértil para a inovação, para o vanguardismo e até para a piração. É aqui que os designers exercem suas expertises técnicas aliadas aos projetos imaginativos livres de limitações. Fato é que o mundo aos poucos está voltando ao normal (especialmente no hemisfério norte) e com uma profusão de discussões a respeito do papel da moda daqui pra frente junto com uma realidade em que diversas marcas têm buscado mudar seu direcionamento estético para algo que acreditamos ser mais condizente com a realidade (leia-se criações modestas, confortáveis, que priorizam a performance e com pouca margem para um estilo diferenciado), é esperado que um caminho totalmente diferente seja tomado quando o clima é propício para tanto. E nessa temporada de alta-costura, foi justamente o que aconteceu. Nesse lugar onde a inovação e a generosidade não têm um limite orçamentário, o luxo imperou. Mas não estamos falando de qualquer variação contemporânea a respeito da definição de luxo. Aqui o luxo é o que é e ponto. Sem desculpas. Todos aqueles códigos que atravessam a história e que formaram a concepção clássica do que é luxuoso podem ser encontrados aqui. Volume, brilho, exuberância, pele (fake, obviamente, já que até o luxo mais tradicional é passível de adaptação), joias, luvas, chapéus, scarpins de bico fino. O luxo pelo luxo na sua representação mais clássica teve uma retomada significativa nessa temporada que visa, além do escapismo, a clara mensagem de que ninguém aguenta mais a escassez – financeira, de escolhas, de autonomia sobre as mais simples decisões, de respirar… – é a abundância mostrada através de códigos de riqueza e por mais que não nos seja sequer alcançável o produto da alta-costura, sua mensagem é democrática e nos atinge em cheio. Que venham os tempos abastados!

 

Temporada FALL 21 | era do gelo

23.03.21 | Semanas de Moda Tendências


 

Nós já falamos sobre alguns movimentos de moda que percebemos durante as apresentações da temporada fall 21 e muito do que vimos até agora tem relação com atitudes mais sustentáveis, através do exercício de renovar e otimizar peças já existentes, do resgate de uma atmosfera retrô, que também acena para o ato de voltar a usar algo esquecido, ou mesmo consumir de maneiras alternativas, se voltando para as trocas ou brechós, por exemplo. Também já falamos sobre o movimento da sobrevivência (para relembrar, clique aqui) que aponta para as diversas nuances a respeito do tema, seja através do conforto que remete à segurança do lar, passando pelas referências apocalípticas do cinema, dos games e da literatura, chegando ao visual composto por diversas camadas que sugere a resistência através de uma vida nômade. A exploração das nossas formas tão plurais e subjetivas de sobreviver também engloba encontrar maneiras mais sustentáveis de consumir e ambos os movimentos podem ser inseridos no conceito deste que chamamos de “A Era do Gelo”. Se observarmos o que foi apresentado nessas recentes coleções, veremos uma interpretação dramática do que a moda espera para o futuro, em especial para o inverno que, com base nos looks criados, será implacável. O exagero das camadas, o volume e o peso dos casacos, a utilização de matéria prima que remete à ancestralidade humana (pelos fake em especial) e a proteção do corpo elevada a níveis extremos propõe não só um visual glamouroso e ao mesmo tempo preparado para as temperaturas glaciais, mas também nos convida a refletir sobre a necessidade de se vestir dessa maneira. Será que com nossos hábitos atuais estaríamos caminhando para uma nova era do gelo? As passarelas aqui indicam, num primeiro olhar, o ato de sobreviver a condições extremas, mas também podem ser interpretadas como um apelo para que repensemos nossas posturas para não chegar a este ponto.

 

PFW Fall 21 | os casacos que fazem a diferença

11.03.21 | Semanas de Moda Street Style


 

Na semana passada falamos sobre o street style da semana de moda de Milão (caso tenha perdido é só clicar aqui) e em como o momento atual impactou nas produções da ocasião, antes marcada por looks extravagantes, conceituais e compostos em sua esmagadora maioria por etiquetas restritas a uma pequena parcela da população. Com as apresentações da temporada acontecendo agora em Paris, notamos que a moda das ruas tem seguido a mesma linha estética mais modesta e desafetada da cidade italiana. A simplicidade nas escolhas das frequentadoras da Paris Fashion Week é evidenciada também pela impressão do exercício de revisitação do próprio armário. O diferencial aqui fica por conta dos casacos. Este item de complementação do visual tem um importante papel de deixar todo o resultado final mais interessante e em muitas vezes se torna o ponto de riqueza, o protagonista do look. E as imagens das ruas de Paris mostram exatamente isso. Houve um resgate dos casacos mais longos que substituem as jaquetas e os modelos médios das outras temporadas. Essas peças, ainda, chegam enriquecidas ou pelas texturas marcantes de materiais robustos, como o couro, o vinil e os pelos fake ou pela distinção do corte e do caimento impecáveis. Seja para deixar o visual mais sofisticado ou impactante, um bom sobretudo, certamente, é um item que pode valer o investimento pela sua capacidade de elevar qualquer produção. Confira:

 

MFW FALL 21 | Novos propósitos no street style da semana de moda de Milão

04.03.21 | Semanas de Moda Street Style


 

A semana de moda de Milão é certamente uma das mais tradicionais e importantes do circuito, até porque é, junto com Paris, onde alguns desfiles presenciais de algumas das marcas mais relevantes da indústria estão acontecendo, mesmo no momento atual. Aliás, é o momento que vivemos o ponto central para analisarmos os looks que andam circulando pelas ruas de Milão durante a fashion week. Se antes tínhamos a cidade como uma das mais efusivas e extravagantes no assunto street style em um período pré-pandêmico, hoje o cenário é diferente.

 


 

 

 

É claro que quando tratamos das produções encontradas nas portas dos desfiles é comum nos depararmos com visuais que geralmente fogem da realidade comum, mas se adequam à ocasião de aura mais glamorosa. A pandemia e o consequente isolamento social, no entanto, parecem ter mudado drasticamente o modo de manifestação do estilo pessoal. O exagerado e o conceitual de antes deram lugar a um visual muito mais real e condizente com o momento difícil que o mundo está passando. Se o consumo desenfreado não faz mais sentido frente a outras prioridades, exercer um novo olhar sobre o que já existe em nosso armário parece ser uma atitude muito mais apropriada com o presente, que também se pauta pela sustentabilidade. Vimos produções que realmente podemos usar, compostas em sua maioria de itens tradicionais do guarda-roupas, mas também percebemos um movimento de exercer novas construções da silhueta, com a exploração de sobreposições e de novas funções para as peças (uma camisa pode simplesmente se tornar um vestido, por exemplo). Itens que fazem alusão a brechós também apareceram bastante, bem como a combinação de peças que geralmente seriam destinadas a ocasiões mais formais misturadas com outras de cunho casual e urbano.

 

 


 

 

 

São novas prioridades para comportar um novo estilo. Não estamos dizendo que você precisa sacrificar aquilo que realmente gosta em prol de um visual mais confortável ou modesto. Mas agora é o momento de exercer a criatividade e é justamente isso que essas imagens do street style de Milão nos passam. O look real e atual não precisa ser simplório mas pode muito bem passar pelo crivo de novas interpretações se você estiver disposta a exercitar seu lado mais imaginativo.

 

Monocromáticos TERROSOS

25.02.21 | Moda Semanas de Moda Tendências


 

Os tons terrosos já se tornaram um clássico e ao menos uma peça com essa característica pode ser encontrada nos mais diversos armários. Essa é uma família sofisticada de cores e devido a sua grande variedade de nuances seu uso é bastante versátil, já que todas elas combinam perfeitamente entre si, o que possibilita um maior aproveitamento do guarda-roupas. As apresentações da temporada fall 2021 reviveram os tons, como é de se esperar até pela própria natureza da temporada, mas de uma maneira um pouco mais moderna. Looks monocromáticos são considerados criativos e corajosos, já que dependendo do tom escolhido o visual pode ficar bem marcante. Mas uma produção monocromática feita somente com tons terrosos é capaz de manter essa diferenciação sem, no entanto, exagerar na dose de teatralidade. Muito pelo contrário. Justamente por se tratarem de cores que possuem uma essência naturalmente sofisticada, existe um equilíbrio entre a dramaticidade inerente ao look monocromático e a elegância desses tons. Outra característica que notamos nesse movimento monocromático terroso, é em relação aos materiais das peças que, em sua maioria, são mais densos. Couro, camurça, lâ, pelos, sarja e uma alfaiataria mais encorpada trazem ainda mais modernidade ao caráter tradicional dessas cores.

 

Decorativismo 70’s

18.02.21 | Moda Semanas de Moda Tendências


 

Como você viu na semana passada, nós aqui do escritório já estamos de olho nos movimentos da temporada fall 2021 (caso tenha perdido a primeira análise, clique aqui) e conforme as apresentações vão acontecendo, nós conseguimos captar diversas referências para geramos nossos conteúdos. Dessa vez, com a NYFW acontecendo (mesmo que em grande parte remotamente), percebemos um movimento que enaltece a estética da decoração dos anos 70. Pense nos papéis de parede, na tapeçaria, nos estofados, nas cores e nos materiais que eram utilizados na época para o decor das casas e veja nosso moodboard abaixo que você notará as semelhanças, que também remetem ao próprio design das roupas setentistas. São tons terrosos mais opacos, florais, xadrezes e paisley nas padronagens e texturas mais densas e marcantes, como o jacquard, o veludo, a lã, o jeans e o lamê, aplicados em calças com barras mais amplas, vestidos de comprimento midi, macacões e peças com golas mais fechadas. O visual aqui não faz só uma alusão ao período, mas se mostra quase literal e tem essa atmosfera vintage que se relaciona também com as peças encontradas em brechós.

 


fall 2021 RTW | Sobrevivência

11.02.21 | Moda Semanas de Moda


 

As apresentações da temporada fall 2021 RTW começaram e já conseguimos perceber um movimento importante que permeou a essência da maioria das coleções até este momento. Sabemos que estamos em um período delicado em diversos setores da sociedade a nível mundial. Questões ambientais sérias, ascensão de um conservadorismo nocivo e limitante, a iminência de conflitos relevantes, instabilidade econômica, violência e, obviamente, uma pandemia. São diversos cenários pouco otimistas que contribuem, também, para que a moda se ajuste a este visual que sugere a sobrevivência nos mais diversos níveis. Ao que tudo indica, o clima otimista que inúmeros designers propuseram na temporada spring 2021 apresentada no final do ano passado foi colocado em modo de espera, ao menos nessas primeiras apresentações. O visual é pós-apocalíptico. Construções e sobreposições extremas indicam a ideia de se usar tudo o que for preciso e de uma vez. A mensagem inicial pode ser de uma vida nômade, onde é necessário carregar consigo o que for essencial para sobreviver, mas se analisarmos a fundo, a ideia é de segurança – usar o que nos remete a um lugar de conforto para manter a sensação de pertencimento onde quer que você esteja. Para captar esse mood, veja as coleções da Lameire, Y/Project e Wooyoungmi. A sobrevivência explorada aqui também faz alusão aos games, como é o caso da Balenciaga, que inclusive lançou um jogo junto com a coleção. A ideia de um mundo dominado pela tecnologia que pode a qualquer momento controlar os passos da humanidade já foi explorada à exaustão pelo cinema e pela literatura e o cenário catastrófico de Matrix, Exterminador do Futuro, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451 e tantos outros também parece ter servido de referência para as coleções da Vetements, Eytys e Rhude. Já na Myar, o conceito é de ressignificação. Os casacos e os calçados que parecem ter sido feitos de última hora apenas com materiais que estavam ao alcance dão um clima pré-histórico ao visual, mas também levantam questões ambientais – reciclagem, upcycling, otimização para um consumo menor, segunda mão etc. Sobreviver também pode ser interpretado como se resguardar. O conforto das roupas típicas da permanência no lar entra neste movimento e pode ser visto nos shootings da Thakoon e da The Row, de clima seguro, familiar e intimista. De maneira concisa, essa atmosfera engloba roupas com características utilitárias, estampas camufladas, styling que cobre o corpo e sugere proteção, tecidos tecnológicos, mensagens fortes que desafiam ideais retrógrados, estética de gênero fluído e peças “para ficar em casa”. Obviamente a ideia de sobrevivência deste movimento é muito mais abstrata (assim esperamos). Esta concepção representa nossas batalhas e nossos modos de resistir de maneira subjetiva – seja enfrentando, seja se retraindo, não existe certo ou errado quando tratamos de sobrevivência.

 

 

spring 2021 COUTURE – a segunda parte das nossas análises dos desfiles da semana de alta-costura

04.02.21 | Moda Semanas de Moda


 

Masculino e feminino, festa, subversão, loucura. A segunda parte do nosso ponto de vista sobre os desfiles da semana de alta-costura traz um bloco de apresentações que se destacam não só pela inovação, mas principalmente pelo questionamento do que significa couture nos dias atuais e frente a tantos problemas. O que os estilistas buscam, no final das contas, é o mesmo que nós. Quando nos vemos na mesma situação, ainda que em circunstâncias diferentes, voltamos nossos olhares para o que realmente importa, de maneira subjetiva. Um livro, a saudade da aglomeração, a manutenção da esperança de que tudo vai melhorar, a beleza nas coisas ou nos conceitos triviais ou na pior das hipóteses que é quando nada mais nos inspira, simplesmente mantemos o foco em não enlouquecer. São pensamentos e atos potentes que surgem frente à situações sérias e que nos mantém vivos. E é exatamente o espectro desses atos e pensamentos que inspiraram os designers desta segunda matéria sobre os desfiles haute couture. Se você ainda acha que moda é futilidade, sugerimos uma reinterpretação dessa objeção e te convidamos a pensar e associar o que acontece em um simples evento como é o desfile com o que acontece a no mundo, hoje.

 


spring 2021 COUTURE – a primeira parte dos desfiles da semana de alta-costura de Paris

28.01.21 | Semanas de Moda


 

A semana de alta-costura de Paris finalmente chegou para nos trazer o escapismo necessário em tempos sombrios. Muito se discute sobre a relevância de uma semana de moda feita para uma clientela diminuta e privilegiada, mas a verdade é que a alta-costura, por mais que seja uma realidade não só inacessível, mas inimaginável para a maioria de nós, representa essas criações que manifestam de forma exponencial toda a expertise, criatividade e ousadia (ou não) dos poucos estilistas que compõem o calendário. Além das criações pautadas pelo tradicionalismo, tivemos boas surpresas no que diz respeito à inovação, especialmente na Schiaparelli e na Valentino. Confira a primeira parte das nossas impressões dos desfiles de alta-costura desta temporada.

 

S/S 2021 V – Alfaiataria ampla

28.10.20 | Moda Semanas de Moda Tendências


 

Que o conforto foi uma das características de vestuário que mais ganhou protagonismo nos últimos tempos não há dúvidas. Com o período de confinamento e a vida profissional acontecendo de casa, não faria sentido que ao menos uma parte da composição visual não prezasse pelo conforto. A rotina, no entanto, está se normalizando aos poucos e o conforto ainda será um atributo essencial para a edição visual de muita gente, mas de uma forma alinhada com o que se espera de uma produção de atmosfera profissional, por mais informal que seja o ambiente de trabalho. Unindo o aconchego dos tecidos leves e dos volumes amplificados com a sofisticação inerente à alfaiataria, este movimento se enquadra perfeitamente no equilíbrio entre o desejo de liberdade de movimentos e a polidez contemporânea dos conjuntos femininos. As nuances de modernidade ficam por conta dos detalhes: cores delicadas, que sugerem calma e positividade e que geralmente não são usadas na alfaiataria, truques de styling marcantes, materiais nobres de textura reluzente, assimetria etc.