a temporada SPRING 24 em PARIS | pt.3

17.10.23 | Semanas de Moda


 

O beachwear é trazido para o contexto urbano em duas manifestações distintas e igualmente belas nas passarelas de Isabel Marant e Hermes. Na primeira, a conhecida estética boho chic da marca ganha contornos esportivos por meio das calças cargo, das parkas volumosas e dos macacões e shorts curtíssimos com fortes características utilitárias. A sensualidade despretensiosa de Marant se expõe através de leves vestidos em renda que reforçam seu DNA praiano cool e nas peças mais ajustadas e de textura metalizada que promovem um toque glam à coleção. Na sofisticada Hermés, a praia é trazida para a cidade de forma mais adulta e polida. Tops que remetem aos biquínis são combinados com saias mídi em couro texturizado, seguidos de ótimos conjuntos em linho, seda e algodão. Também se percebe uma nuance esportiva, mas de moda mais discreto e sofisticado. Sofisticação essa conseguida principalmente pela paleta de cores da coleção que transita entre vermelhos fechados, olivas, cinzas e brancos opacos.

 

 

Uma outra proposta do look de verão é apresentada nas coleções de Schiaparelli e McQueen. Estrutura, modernidade e exuberância são as palavras de ordem e não poderia ser diferente tendo em vista a própria trajetória das marcas. Na primeira, o surrealismo é trazido para as representações das lagostas desenhadas por Salvador Dalí tanto em texturas tridimensionais aplicadas em saias, blusas e acessórios, quanto em estampas superlativas que enaltecem um verão repleto de ostentação. As referências artísticas podem não ser tão evidentes na McQueen, mas a excentricidade aqui ganha vida pela estrutura, pelos metalizados e pela atmosfera que faz alusão a uma espécie de guerreira moderna através de designs que remetem a armaduras.

 

 

Na outra mão, temos a estética que enaltece a suavidade, uma ideia muito propagada nas outras semanas de moda. Surpreendentemente, a Louis Vuitton – que costuma trabalhar com camadas mais elaboradas, contextos experimentais e styling dramático – veio menos barulhenta, mas ainda assim contemporânea. Peças estruturadas e esportivas foram misturadas com outras mais fluídas e tradicionais criando um equilíbrio interessante entre o urbano e o bucólico. Na Zimmermann, que possui a delicadeza boho em seu DNA, a modernidade se fez presente em saias de couro, calças jeans amplas e alfaiataria desprendida, tudo em uma paleta mais opaca e com a adição de itens altamente românticos que levam a marca para um lugar mais atual.

 

 

Na Chanel, a estilista Virginie Viard estabelece seu compromisso com as roupas descomplicadas, porém extremamente chics. As texturas densas aplicadas em formas amplificadas e os looks finalizados com chinelos que lembram nossas amadas Havaianas criam essa atmosfera “easy chic” que é parte do DNA Chanel. Ótimos jeans, vestidos esvoaçantes, camisas listradas e a acessorização precisa completam a proposta.

 

 

O conceito de chic sem esforço ganha pitadas esportivas e modernas na coleção da Coperni, que adiciona detalhes insuitados como linhas diagonais, babados e peças com inspiração no universo da natação para reforçar a sua proposta do novo urbano. A Loewe, marca que também é conhecida por exuberâncias e experimentações, veio com uma coleção mais sossegada com ótimas peças em couro e calças de cintura altíssimas que desenham a silhueta de uma forma interessante. Com menos barulho e mais sofisticação também é a coleção de Victoria Beckham, que traz clássicos da alfaiataria em modelagens mais ajustadas, macacões de utilitarismo polido e bodys em tricô que ficam no meio termo entre a tradição e a inovação.

 

 

Seguindo a linha mais discreta também temos a Valentino, que continuou seu storytellin da coleção couture e trouxe vestidos lisos, camisas e calças jeans como uma reinvenção e atualização do luxo. O toque mágico fica por conta das peças inteiramente texturizadas e nas flores tridimensionais que formavam calças e vestidos.

 

 

Stella McCartney e Miu Miu têm muita coisa em comum nessa temporada. Aliás, a Miu Miu parece ter inspirado a estética de muitas marcas, já que suas narrativas visuais podem ser reconhecidas em algumas coleções apresentadas não só em Paris. A ousadia das calcinhas usadas como peça de composição principal do look, os delicados bordados aplicados em itens fluídos, o questionamento à estereotipização da feminilidade, a subjetividade do belo. Em ambas as coleções se nota essa anarquia estética, mas cada uma a sua maneira.

 

a temporada SPRING 24 em PARIS | pt.2

04.10.23 | Semanas de Moda


 

De toda essa temporada que trouxe narrativas ligadas à delicadeza e à ideia de feminilidade clássica, Paris foi a semana de moda que mais se distanciou desses conceitos românticos tradicionais e trouxe uma vertente mais minimalista e contemporânea da ideia de manifestações do feminino. Na Courréges, a alfaiataria ganha modernidade pelos recortes e pelas dimensões amplificadas. As linhas diagonais aplicadas em saias e vestidos, as fendas, os decotes e as golas abertas em um dos ombros são alguns dos recursos usados para deixar sempre uma parte estratégica da silhueta à mostra, o que traz não só dinamismo, quanto uma dose extra de sensualidade à seriedade atrelada aos conjuntos de alfaiataria. A coleção da Givenchy já faz uma leitura mais urbana da alfaiataria através de formas mais angulares, mas a narrativa sensual ainda se faz presente pelo uso da transparência e dos decotes mais aprofundados. Aqui o fator romântico se faz um pouco mais presente, especialmente pelos tons mais suaves e das texturas e estampas mais delicadas. Até nomes que possuem uma trajetória visual mais superlativa vieram com os pés no freio nesta temporada. É o caso da Dries Van Noten, que é conhecida por sua mistura de padronagens inusitadas e que nesta temporada trouxe um visual mais comedido, porém não menos moderno – como já é esperado da marca.

 

 

Minimalismo, no entanto, não é o movimento ideal para Rick Owens. O estilista que é conhecido pelo seu design futurista e associado à estética imaginada da vida extraterrestre não saiu de seu campo costumeiro de atuação e trouxe toda a sua visão conceitual à passarela. Nesta coleção, no entanto, conseguimos alcançar um ponto aqui e ali mais comercial. Embora as estruturas de Rick sigam uma linha mais vanguardista, suas calças de cintura altíssima e suas jaquetas arquitetônicas são perfeitamente imagináveis em uma dinâmica do dia a dia. Na Acne Studios, outra marca pautada pela modernidade experimental, vimos essa estética futurista ser levada para um lugar de maior fluidez. Peças esvoaçantes recebem intervenções que trazem as criações para um terreno moderno, fazendo com que o futuro idealizado pela marca não seja assim tão distópico.

 

 

O minimalismo também passa longe das passarelas da Rabanne e da Marni. Na primeira, as malhas e as aplicações metalizadas, os drapeados intensos e os artesanais robustos trazem um exagero bem-vindo a semana de moda de Paris. Na Marni, são as formas experimentais e as cores vibrantes que imprimem uma referência artística livre à uma temporada feita de tantas discrições. Barulho, afinal, também faz parte da vida.

 

 

Na Dior, misticismo e potência feminina se encontram e se entrelaçam em uma estética que é ao mesmo tempo real e com nuances góticas. O romance repleto de sensualidade trazido por Mariz Grazia Chiuri é inspirado por figuras femininas como Joana D`arc e as mulheres que ficaram conhecidas como as Bruxas de Salém. É uma coleção profunda nas cores, na make e nos acessórios mas que também emana uma beleza delicada especialmente pelo trabalho rústico com as rendas e nos acabamentos imperfeitos.

 

 

A escultura Nice de Samotrácia exposta no museu do Louvre e que representa a deusa da vitória, da força e da velocidade na mitologia grega foi a inspiração para a última coleção de Gabriela Hearst para a Chloé. Em peças repletas de textura e movimento, a estilista evoca uma feminilidade plural. A mulher de Hearst pode ser tanto romântica quanto destemida e esse universo se manifesta no movimento dos plissados marcados, na silhueta ovalar utilizada principalmente na parte de cima das peças, que causa uma ampliação do corpo sem perder a naturalidade, nas delicadas rendas, ou na densidade do couro. Aqui vimos a força feminina se mostrar das mais variadas formas.

 

 

Olivier Rousteing não é um designer que flerta com o minimalismo e não será em uma temporada majoritariamente minimalista que isso vai mudar. O maximalismo do estilista se converte em formas, texturas e cores superlativas com inspiração principal nas flores que aqui são representadas de maneira literal em aplicações tridimensionais e estampas excêntricas, que vêm junto com modelagens estruturadas, materiais chamativos e combinações de alto contraste. Tudo ao mesmo tempo acontece na passarela da Balmain, que se mantém fiel a sua trajetória independente das tendências do momento.

 

a temporada SPRING 24 em PARIS | pt.1

28.09.23 | Semanas de Moda


 

Vaquera desafia convenções e distorce o tradicional com um desfile moderno, questionador e visualmente contextual que faz parte da identidade da marca, abordagem também usada pela Weinsanto que trouxe uma coleção extremamente sensual ao mesmo tempo em que brincava com elementos fantasiosos – embora repleta de boas peças de complementação, blusas e calças bem ajustadas e corsets estruturados que fazem sozinhos qualquer visual.

 

 

Na Pierre Cardin, o futurismo que é tão inerente à trajetória da marca foi mostrado em uma vertente bem referenciada na década de 60. Vestidos curtos e estruturados, a típica gola escafandro, acessórios como óculos e botas de cano curto com fortes características sessentistas e padronagens geométricas de alto contraste de cores reforçam essa narrativa que é futurista e vintage ao mesmo tempo.

 

 

As narrativas mais românticas que vimos em outras semanas de moda desta temporada apareceram nas coleções apresentadas até agora, mas em Paris essa atmosfera tem sido levada para um lado com toques urbanos, estruturados e minimalistas. É o caso da CFCL com seus conjuntos monocromáticos levemente amplos e vestidos de base romântica apresentados em cores e materiais mais densos e por vezes com detalhes metalizados para equilibrar os códigos de delicadeza, mesmo recursos usados pela Mossi, que adicionou um pouco mais de volume, e maleabilidade às suas peças. A clara influencia oriental aqui é manifestada em recortes diagonais e drapeados que lembram as vestes tradicionais japonesas e adicionam tanto dinamismo quanto complexidade a peças de base mais clássica.

 

 

Itens tradicionais do armário são reconfigurados e sofrem intervenções que dão outra dinâmica para peças como calças de alfaiataria, camisas clássicas, vestidos retos em malha, blazers, parkas, bermudas e chemises. Na passarela da Victoria & Tomas, esses elementos sofrem intervenções contemporâneas de recortes, aplicações e detalhes utilitários que modernizam seu propósito original. Na Peter Do, essas descaracterizações são utilizadas através dos comprimentos inusitados e das construções mais elaboradas de camadas que trazem os clássicos para um lugar de contemporaneidade sem que percam a beleza e a utilidade para a vida real.

 

 

O futurismo sessentista volta a ser manifestado, desta vez na passarela da Anrealage, que se valeu de roupas feitas em materiais plásticos (recurso bastante visto em Milão também) para recriar um visual que remete muito aos filmes de ficção científica do período, especialmente porque muitas das roupas refletiam a luz do ambiente e mudavam de cor por completo. Texturas plásticas também foram vistas na Germanier, mas de uma maneira mais superlativa, refletindo muito mais um mood tropical do que futurista – fruto da colaboração com o estilista brasileiro Gustavo Silvestre da Projeto Ponto Firme.

 

 

Com o maior desfile dos primeiros dias de Paris Fashion Week, a Saint Laurent também se voltou para os anos 60, porém, com uma abordagem visual distinta. Cos referências e releituras de peças e estéticas icônicas que Yves Saint Laurent criou no período, a coleção foi composta em sua maioria por roupas para o dia a dia (de uma mulher extremamente sofisticada) através de macacões com nuances utilitárias, regatas básicas, saias-lápis, calças mais ajustadas e ótimos casacos de comprimentos diversos e impactantes pelo poder visual. Chic ao extremo, a coleção se diferencia do básico pelo styling que prezou pelos looks monocromáticos, pelos acessórios robustos que imprimiam um glamour dramático às composições (inclusive luvas de efeito slouchy) e na perfeição da paleta composta de tons cáqui e uma variação de terrosos que deixou tudo ainda mais sofisticado e desejável.

 

MFW spring 24 | runway

27.09.23 | Semanas de Moda


 

A semana de moda de Milão nos mostrou narrativas alinhadas com o mood da fashion week nova-iorquina. Visuais delicados, um resgate dos códigos românticos clássicos, cores opacas, feminilidade ao extremo. Essa temporada tem nos mostrado uma atmosfera suave, porém não muito conservadora. Temos ainda um forte apelo sensual, especialmente pelo uso da transparência, dos recortes e decotes mais acentuados e principalmente pelo styling que enaltece shorts extremamente curtos, hot pants e até calcinhas como parte da composição principal do look. Mesmo que haja essa nuance sensual, a feminilidade não é deixada de lado e aparece como um dos principais movimentos estéticos desta temporada spring 24.

 

 

Talvez o toque mais urbano encontrado nos movimentos de milão seja esse, embora ainda carregado de delicadeza. O couro, material robusto geralmente associado às estações mais frias, aqui é trabalhado com movimento e comprimentos diminutos a fim de se encaixar nas temperaturas mais elevadas. Shorts, saias e vestidos feitos no material deixam a pele à mostra e permitem a liberdade do corpo por serem trabalhados de maneira maleável.

 

 

Neste movimento o romantismo se mostra de maneira mais dark. Com a profusão de rosas e a estética do Barbiecore sendo usada à exaustão, esse visual se mostra contrário a tanta doçura, embora ainda promova toques de romantismo. Se a Barbie tivesse uma versão gótica, esse seria seu visual.

 

 

As franjas ganham altas doses de sofisticação e modernidade nessa temporada e deixam de ser usadas como mero detalhes para se tornarem um ponto focal importante do visual. Em materiais mais densos como o couro e pesados e marcantes como as metalizadas, elas vêm em blusas e vestidos completos trazendo ao mesmo tempo movimento, delicadeza e complexidade ao look.

 

 

Shots muito curtos, hot pants e calcinhas passam a ser mostrados sem qualquer sombra de modéstia. Se com o retorno da estética dos anos 2000 os fios das calcinhas passaram a ser mostrados sob calças de cintura baixa, agora as peças deixam de ser apenas sugeridas e passam a fazer parte da composição principal do visual, aparecendo sob peças transparentes ou mesmo usadas como shorts.

 

 

Das cores mais suaves que aparecem em quase todas as coleções desfiladas em Milão, o azul-bebê certamente é uma das principais dessa paleta delicada. Vimos a cor ser bastante usada na semana de moda de Copenhagen e agora ela se consagra em Milão nos mostrando uma possível tendência forte para o verão 2024/25.

 

 

Movimentos que trazem elementos esportivos e peças funcionais são atualizados para uma forma mais moderna, pautada no minimalismo sofisticado e em looks estruturados

NYFW spring 24 | runway

15.09.23 | Semanas de Moda


 

A semana de moda de NY nos trouxe uma atmosfera bem diferente da que vimos na temporada passada. Se nos desfiles do começo do ano a estética da atemporalidade e do luxo sem ruído foi o que dominou as coleções, agora vimos apresentações pautadas pela leveza, pela fluidez, com muitos materiais finos e acetinados, cores suaves e um mood geral que indica relaxamento. Até os símbolos mais sensuais têm como base a delicadeza, que pode ser encontrada tanto na matéria-prima quanto nas formas mais amplas, ou mesmo em referências naturalmente graciosas, como o balé. Os looks altamente urbanos e utilitários dão lugar a uma diferente manifestação de potência: aquela encontrada na gentileza. A feminilidade retratada aqui, porém, está longe de ser ingênua, conservadora ou representada por códigos românticos antiquados.

 

 

Inspirações no balé e na sua estética – principalmente as peças em tule – aparecem com uma roupagem subversiva e com nuances que lembram o movimento punk. Jaquetas de couro, amarrações, transparência, tops extremamente curtos, recortes dramáticos e scarpins são alguns dos elementos que trazem equilíbrio para a doçura associada ao universo das bailarinas.

 

 

Depois de algumas temporadas de reinado dos vestidos curtos, os maxi ganham novo fôlego para o nosso verão 2024/25 em sua versão mais superlativa. O maxi dress chega ainda mais maxi pelos volumes, estampas e cores vibrantes para tirar qualquer vestígio do quiet luxury do nosso visual.

 

 

Ainda que a delicadeza seja uma das principais narrativas da semana de moda nova-iorquina, a sensualidade também se fez presente através de ligas, bodys e corsets que deixam de ser escondidos sob a roupa e passam a fazer parte da composição dos looks. Como esses elementos possuem características sensuais muito fortes, rendas, cores suaves, comprimentos mídi e peças em tule vêm para equilibrar esse apelo.

 

 

Quando mencionamos no texto de introdução deste post que o clima das coleções era de relaxamento é por causa principalmente deste movimento. Roupas que parecem ter saído diretamente da riviera francesa dos anos 60 dão um tom sofisticado e ao mesmo tempo divertido para a estética do próximo verão. Saias levemente amplas, calças pantalona, polka dots, xadrezes, chapéus bem característicos do período, óculos grandes e vestidos artesanais trazem uma impressão sessentista forte ao look e a intenção aqui é fazer uma representação visual fiel da referência.

 

 

Saem as sereias, entram as fadas. Se o mermaidcore é um dos principais direcionamentos visuais deste verão, no próximo as fadas é que ganharão uma atenção importante – seja aquelas representadas nos contos infantis ou mesmo as ninfas da mitologia grega.

 

 

Uma das composições mais vistas nas apresentações da fashion week de NY foi o maxi vestido de material transparente finalizado com blazer – seja o de modelagem clássica acinturada, os modelos mais amplos e de shape quadrado ou mesmo aqueles em couro. O blazer é um elemento estruturado que traz um toque urbano aos vestidos longos, fluídos e transparentes que sugerem tanto romantismo quanto sensualidade.

fall 23 COUTURE | quiet luxury na alta-costura

12.07.23 | moda pra pensar Semanas de Moda


 

Alexandre Vauthier, conhecido por seu visual carregado de sensualidade em silhuetas de referência oitentista disse na apresentação de sua nova coleção que o momento não é de opulência. Na Chanel em um desfile apresentado às margens do rio Sena, vimos conjuntos, sobretudos e vestidos que poderiam ser feitos para enquadrarem as imagens mais triviais do dia a dia parisiense. De fato, vimos modelos guiando um cão ou carregando uma cesta de flores, sugerindo que mesmo a alta-costura pode ser feita para o cotidiano (de alguém muito rico, obviamente). Na Dior, Maria Grazia já vem preenchendo essa narrativa da excelência silenciosa há algumas temporadas e nesta coleção, que teve como inspiração as silhuetas de figuras divinas dos gregos e romanos, mais uma vez a estilista mostra a potencia do ateliê da maison através da simplicidade. Afinal, quando nos deparamos com criações que não incitam de imediato uma reação eufórica que se mostra principalmente em peças mais conceituais e escapistas, somos obrigados a trabalhar o olhar e o pensamento crítico para ir além, para se ater aos detalhes, ao caimento, ao acabamento e demais elementos que formam aquele visual.

 

 

O look que abre o imponente desfile da Valentino é uma espécie de revisitação luxuosa da calça jeans de modelagem desprendida com camisa social branca oversized e que trouxe um contraste inteligente com a exuberância do castelo de Chantilly, onde a apresentação ocorreu. A calça com textura que imitava jeans é uma peça de alta-luxo feita em seda e aplicações de centenas de contas, além de uma elaborada técnica de camadas de tingimento para se chegar no azul ideal. Ainda assim devemos levar em conta o conceito por trás de um resultado visual simples, mesmo que o trabalho envolvido na produção daquela peça seja de extrema complexidade. Podemos afirmar que a alta-costura abraçou a estética do longo prazo nessa temporada. Vimos um interesse em roupas formais, que inspiram o cumprimento de tarefas que nos são familiares pela rotina – com a diferença, obviamente, de serem peças feitas sob medida com valores astronômicos. Aqui o recado é que mesmo a cliente mais abastada procura uma roupa que se encaixe na vida real e que também seja eterna não só pela técnica empregada, mas também pelo visual.

 

 

Nada é mais eterno que uma boa roupa feita sob medida. Esse eterno se duplica quando falamos de um design atemporal. Pensando em couture, podemos até argumentar sobre a falta de valor artístico, ou de conceito, ou de criatividade levada ao limite. Mas alta-costura também é posicionamento (nos falamos mais a respeito disso aqui), também é uma forma de se reafirmar como marca, um meio de reforçar a herança e a potência de um nome e, acima de tudo, também é um negócio.