ROSALÍA e a inteligência na construção da imagem pessoal

02.09.22 | Get Inspired By moda pra pensar


 

Que a cantora espanhola de 29 anos é um fenômeno, não há dúvidas e certamente sua imagem faz parte do pacote que torna Rosalía um dos nomes mais importantes em termos de expressão artística da atualidade. O marketing em torno da cantora é intenso e não se restringe somente aos seus lançamentos musicais, já que suas escolhas visuais de alinham com sua veia criativa mais experimental e também com suas raízes espanholas.

 



 

É uma construção muito inteligente de imagem. Isso pode ser percebido tanto em seu visual fora dos eventos formais, que fazem uma ampliação estética do seu mais recente álbum, Motomami, quanto em suas aparições no red carpet que trazem de maneira contemporânea elementos tradicionais do flamenco, como a estampa de bolas, os babados, os acessórios que remetem à origem cigana da dança e as franjas encontradas nos mantoncillos que compõem o traje. Existe uma coerência na linguagem da cantora que pode ser percebida na sua música, nos seus vídeos e no seu estilo dentro e fora dos eventos formais. E é justamente essa conexão que traz força ao nome e ao trabalho de Rosalía, que se destaca de uma maneira diferenciada de outras cantoras da atualidade por mostrar, tanto e termos musicais quanto visuais, uma experimentação que foge das amarras da trivialidade.

 



as campanhas das coleções FALL 22 em cenários naturais

31.08.22 | Vídeos



 

Com as coleções fall 22 entrando nas lojas, as marcas produzem suas correspondentes campanhas que buscam, em poucos minutos, mostrar o espírito da coleção, além de gerar impacto e desejo para que as peças sejam efetivamente consumidas. Nesta leva de “fashion films”, percebemos que muitas marcas se utilizaram de cenários naturais, grandiosos e estonteantes para imprimir um conceito de liberdade, frescor e movimento em suas coleções, como se fossemos apenas um (belo) detalhe frente a algo muito mais expressivo e importante. Veja as principais campanhas de outono/inverno que tiveram a natureza como elemento principal de suas narrativas.

 

 

https://youtu.be/4O1zyVg70Kk

 

 

 

MÉXICO spring 23 | a história trazida para o presente

26.08.22 | Semanas de Moda


 

Quem nos acompanha há algum tempo sabe da importância de se olhar para as semanas de moda de lugares que fogem do circuito tradicional. A fashion week do México é um desses eventos que ficamos de olho para entender a moda local e como ela se aplica e se alinha com o mercado global. Embora muito menor, a semana de moda mexicana nos mostra como é possível revisitar a tradição por meio de um olhar contemporâneo e fazer com que a história se junte ao presente. Túnicas, camisas e blusas típicas da estética mexicana se reconfiguram para uma roupagem moderna, menos festiva e mais próxima das demandas de vestimentas atuais que buscam unir conforto e informação de moda. Os vestidos bordados, a padronagem em listras típicas dos sarapes e os ponchos também são revisitados de uma forma mais sóbria, minimalista e global. Até os trajes charro dos vaqueiros e mariachis mexicanos são adaptados para os dias atuais e ganham a cara dos sofisticados conjuntos de alfaiataria feminina. Os babados tão associados à imagem da região vêm mais dramáticos, em formas amplas e desabadas que proporcionam movimento e volume sem perder o tom de romantismo.

 

CFW spring 23 | os movimentos das ruas na semana de moda dinamarquesa

23.08.22 | Semanas de Moda Street Style


 

Geralmente mais sóbria e pautada pelos volumes dramáticos, a imagem do street style da semana de moda dinamarquesa ganhou outras formas nesta temporada. Além da estética tradicional da região, notamos que houve uma experimentação visual maior, pontuada principalmente pelas misturas arrojadas, pelas cores mais vivas e pela forte influência dos movimentos dos anos 2000 e do utilitarismo de viés teatral. Veja quais foram as principais tendências do street style da Copenhagen Fashion Week.

 

Copenhagen SPRING 23 – alfaiataria RECONFIGURADA

19.08.22 | Moda Semanas de Moda Tendências


 

Dando seguimento às nossas análises dos movimentos de moda da temporada dinamarquesa notamos uma narrativa que já é muito exploradas pelos designers escandinavos que é a de propor novas configurações para os conjuntos femininos de alfaiataria. As fashion weeks nórdicas têm essa linguagem criativa de conceder olhares inéditos sobre o que consideramos itens tradicionais. Com a alfaiataria, claro, não é diferente. Nessa temporada, além das modelagens volumosas que já são familiares às coleções escandinavas, temos os recortes extremos, as intervenções que integram técnicas artesanais mais rústicas com a polidez inerente à alfaitaria, acabamentos menos elaborados, vibrações esportivas e linhas diagonais que dão maior dinamismo às peças. Além disso, vimos que o tradicional colete masculino usado em ternos e fraques foi revisitado para integrar o armário feminino quase que em sua configuração original, o que deixa os conjuntos de alfaiataria menos óbvios e mais cool. Bermudas e vestidos também se agregam a essa alfaiataria moderna e contribuem com maior frescor e jovialidade para as peças com essa característica.

 

Copenhagen SPRING 23 – utilitarismo com AFETO

15.08.22 | Semanas de Moda Tendências


 

A semana de moda dinamarquesa começou e já pudemos mapear uma estética muito presente nos desfiles e que representa mais uma atmosfera, uma narrativa, do que uma tendência propriamente dita. O utilitarismo que costuma ser bem explorado pelos designers escandinavos ganhou contornos afetivos na fashion week de Copenhagen através da mistura com técnicas artesanais, ao mesmo tempo que exala modernidade em função das intervenções extremas aplicadas nas criações – como recortes e drapeados bem chamativos. É a tecnologia têxtil se alinhando ao artesanal para criar looks que nos acompanham sem nos privar – seja de movimento, de conforto, de estilo etc. O jogo de opostos trabalhado aqui garante que o visual esteja adequado para qualquer função. Densidade e leveza, tecnologia e manufatura, dormir e sair. É como se encontrássemos o esporte e o lazer, o descanso e o trabalho em um só look. Aqui o artesanal é elevado a um patamar contemporâneo e a tecnologia acena para a sensibilidade criando uma equação visual moderna de afeto + performance. Afinal, somos seres que produzem, mas não somos despidos de emoção; necessitamos do trabalho, mas também queremos diversão; precisamos de agilidade e movimento, mas o descanso é primordial. Essa estética imprime essas necessidades extrínsecas (trabalho, lazer, esporte etc.) e orgânicas (descanso, movimento) em um só look.

 

a alfaiataria é o novo jeans + camiseta

10.08.22 | Get Inspired By Moda Street Style


 

Analisando as mais recentes imagens de street style de uma semana de moda, no caso, da temporada de alta-costura, percebemos que os conjuntos de alfaiataria de modelagem ampla se equivalem, hoje, ao combo calça jeans e camiseta branca de outrora quando apontamos para uma produção básica. Num mar de looks iguais e irreais patrocinados pelas marcas que se apresentaram na ocasião, o visual composto pela alfaiataria desabada se destaca não só pela sofisticação nata, mas também pelo afronte que a simplicidade promove em meio a uma enxurrada de saturação fashion. Produções com essa característica já podem entrar na categoria de clássicos eternos tal como ocorre com o combo mais básico e democrático de todos que sempre é revivido em dias de pressa ou de pouca imaginação, que é o da calça jeans com a camiseta. Tão fácil e democrático quanto, os conjuntos oversized de alfaiataria se alinham tanto na estética atual, como no nosso estilo de vida já que a elegância natural exalada de um look assim permite que ele se encaixe em toda a agenda do dia, com estilo, informação de moda, beleza e conforto acima de tudo.

 

HN – 2 microtendências do momento

28.07.22 | Moda Tendências


 

A série “Happening Now” aqui do blog fala sobre as microtendências que aparecem de forma recorrente sobretudo nas redes sociais, mas que em algum momento também passaram pelos desfiles mais recentes. Hoje vamos citar duas peças de propostas totalmente distintas, mas que têm surgido bastante nos feeds do universo virtual: os vestidos justos e de textura franzida e as saias longas de pegada utilitária. Ambas as tendências são releituras de décadas distintas e que também estão em evidência já há algum tempo. Estamos falando dos começo dos anos 2000 e dos anos 90. Esses vestidos mais ajustados, recortados e com detalhes franzidos são muito característicos dos anos 2000 e também representam o resgate da linguagem sensual que vem sendo bastante explorada pelas marcas desde a mais recente temporada spring. Já as saias cargo alongadas são uma extensão do movimento das roupas típicas do paraquedismo, que começou especialmente com as calças desse estilo (já falamos delas aqui). Além de estarem em sintonia com os desejos atuais de consumo, essas saias são bem características do final dos anos 90, em especial na estética de grupos como os clubbers e artistas do R&B americano – vide a saia usada pela cantora Chilli do grupo TLC no mooodboard abaixo.

 

Analisando a relevância da ALTA-COSTURA

15.07.22 | moda pra pensar Semanas de Moda

Fato: uma marca não se sustenta somente com a alta-costura. Na verdade existem mais gastos do que lucro efetivo em uma coleção dessa natureza. São processos artesanais intermináveis, mão de obra especializada, matéria-prima cara e apenas duas apresentações anuais alguns dos fatores que tornam a alta-costura, por si só, insustentável. A própria nomenclatura alta-costura é legalmente protegida e somente após diversos processos de verificação e cumprimentos de regras determinadas é que uma marca ganha autorização para usar o termo Haute Couture, detido pela Fédération de la Haute Couture et de la Mode (FHCM). Mas se é um processo tão complicado e caro, por que ainda existe? Podemos citar alguns elementos que contribuem para que a HC se mantenha relevante com o passar dos anos e que garantem sua sobrevivência no futuro.

 

 

Segundo Pascal Morand, presidente executivo da FHCM, “couture implica em um alto nível de criatividade, em um alto nível técnico e também um nível absoluto de individualização” (em entrevista para o NY Times de 27/01/2017). Ou seja, basicamente nós transformamos nossa percepção a respeito de uma marca através da alta-costura. O lucro de grandes nomes do setor vem majoritariamente de seu departamento de acessórios e beleza, sendo a HC, portanto, um aceno definitivo para o luxo em um mercado onde a diferenciação é essencial para o destaque e a sobrevivência. A alta-costura, assim, oferece essa oportunidade de evidência adicional. É na alta-costura que uma marca cria emoção, apelo, sonho e gera o desejo muito mais focado em seu “peso” e significado do que pelo que cria propriamente. Couture, portanto, é arte. Mas muito mais do que arte, também é estratégia de posicionamento. Segundo o professor Jean-Noel Kapferer, uma autoridade no setor de luxo e autor de diversos livros sobre o segmento, “a ousadia e a criatividade da alta-costura beneficiarão o setor do ready to wear, pois permite que as marcas estabeleçam preços elevados e assim aumentem sua autoridade simbólica no mercado”. E isso ocorre por causa do efeito “trickle down”, ou efeito de gotejamento. Desde que os seres humanos se vestem além da função de se protegerem e desde que a sociedade se estruturou em um sistema de hierarquia de classes, esse efeito de gotejamento existe na moda. Ele funciona como um mecanismo natural de criação do desejo através da hierarquização das classes sociais. Resumindo: se os mais ricos usam e gostam, eventualmente a massa também vai ser influenciada. Percebe o poder da alta-costura mesmo que ela seja feita para uma clientela tão restrita? O impacto gerado pela HC é refletido em todos os setores de uma marca que, por sua vez, se posiciona, se valoriza no mercado e tem aval para praticar os preços e a estética que bem entende. Outro ponto relevante é o nicho. A HC conversa com indivíduos específicos e privilegiados (muito privilegiados) e é uma ferramenta para que esses mesmos indivíduos se diferenciem. Isso cria uma relação a longo prazo com essa clientela cujo capital não fica restrito somente às criações feitas sob medida. E o crescimento do número de bilionários no mundo em especial nos mercados emergentes amplia a atuação da HC, ao mesmo tempo que ela ainda permanece restrita a um grupo específico.

 

 

E como ela se atualiza? Principalmente com a flexibilização de algumas regras e com a busca de singularidade. Ou seja, mesmo que haja um número obrigatório de looks a serem desfilados para que uma marca consiga ser convidada para a semana de alta-costura de Paris, essa regra pode ser revista caso o estilista tenha relevância, singularidade, apelo e flerte com a inovação, como acontece com a holandesa Iris Van Herpen, que além de poder desfilar menos looks do que a regra da FHCM estabelece, ainda usa a impressão 3-D para produção de suas peças (o que iria contra as regras da federação que exige que as roupas sejam feitas à mão).

 

 

A entrada de marcas mais arrojadas no calendário também contribui para que a curiosidade e a importância na HC se mantenham, como é o caso da Balenciaga, do duo holandês Viktor & Rolf e da belga Maison Martin Margiela comandada por John Galliano.



Algumas marcas que se apresentam nessa temporada também podem chamar a atenção para problemas sérios da atualidade, como no caso da Dior que fez uma coleção inteira dedicada ao folclore ucraniano em colaboração com a artista Olesia Trofymenko ou nas coleções sustentáveis de Ronald van der Kemp que desde sempre atua da maneira a causar menos impacto ambiental possível com suas criações, ao mesmo tempo que entrega um trabalho de alto valor artístico.



 

A HC acompanha o presente e se flexibiliza sem, no entanto, perder seu caráter de exclusividade e acenar para a banalização, o que faria cair por terra toda a estratégia de posicionamento e autoridade das marcas. Hoje, portanto, muito mais do que regras engessadas e expectativas de looks magistrais e impossíveis, a HC é sobre singularidade. É todo um universo a parte que independe de tendências e movimentos sazonais e é justamente por sua sagacidade na adaptação ao presente que a alta-costura continuará sendo relevante no futuro. O relaxamento estratégico de seus códigos e a entrada de novos membros traz dinamismo e renova o interesse pela HC, ainda que o ingresso nesse clube continue sendo muito restrito.