SPFW N.48 | Angela Brito

17.10.19 | Semanas de Moda


 

 

De Cabo Verde para o Rio de Janeiro e da Casa de Criadores para a São Paulo Fashion Week, Ângela Brito fundou sua marca em 2014 com o propósito de oferecer roupas de qualidade, criativas e confortáveis. Ângela segue a linha slow e tudo que produz é feito com cuidado e atenção em cada detalhe. Seu minimalismo é futurístico, pontuado pelo design contemporâneo, pelos shapes desabados e recortes inusitados que oferecem riqueza sem afetação para suas peças.

 

 

 

Nesta coleção Ângela traz uma atmosfera bucólica que não ficou restrita ao cenário da apresentação. Vestidos ao mesmo tempo leves e estruturados, blusas assimétricas, camisas com mangas românticas na medida e saias trabalhadas com sobreposições utilitárias reforçaram o objetivo da estilista de conexão com a natureza, principalmente àquela de inspiração em seu continente Natal. A estampa floral abstrata que apareceu em diversos looks foi feita pelo fotógrafo Marcos Florentino, que digitalizou a padronagem nos tecidos. Ângela Brito mostrou uma coleção com afinidade de opostos. Os recortes e assimetrias ao mesmo tempo em que desconstruíam, davam vida a novas formas. Estrutura e leveza. Romantismo adulto e sensualidade equilibrada. As criações de Ângela neste desfile de estreia demonstram afetividade com suas raízes africanas não só pelo design propriamente dito, mas também pela consideração ao optar por um casting composto apenas de modelos negras, pelo styling produzido pelo nigeriano Daniel Obasi e até pela beleza das modelos, inspirada pelos povos do Vale Omo na Etiópia.

 



 

 

 

 
Fotos: Zé Takahashi e Marcelo Soubhia

SPFW N.48 | Beira

17.10.19 | Semanas de Moda


 

 

A Beira também faz parte das marcas relativamente novas que estão em ascensão no circuito nacional justamente por se alinharem com as demandas atuais do mercado, em especial na questão da sustentabilidade, pela criação de peças fluídas, que podem transitar livremente pelo universo de ambos os gêneros e pelo compromisso com a diversidade.

 

 

Nesta temporada Lívia Campos, diretora criativa da marca, revisitou as peças do estoque e promoveu novas intervenções com técnicas artesanais de tingimento e lavanderia a fim de reinterpretar criações antigas e transformar as roupas em algo totalmente diverso de sua proposta original. Reciclar, reutilizar e dar novos significados sobre o já existente parece ser a pauta principal desta edição da SPFW, que traz fôlego à moda nacional com gente nova, engajada e disposta a fazer a diferença, seja no comprometimento com a inclusão de pautas sociais e políticas urgentes, seja pela liberdade criativa que eleva a qualidade dos produtos made in brazil. A Beira desfilou azuis suaves e calmantes – passando da gama dos mais claros aos acinzentados e chegando aos profundos – em modelagens desprendidas e livre de rótulos. Apesar de parecer simples, todos os detalhes das peças foram cuidadosamente pensados para que se tornem únicas nos corpos de quem as adquire – dos comprimentos das mangas aos bolsos utilitários, das propostas de sobreposições às costuras mais largas que vão se desgastando conforme a lavagem. Da nobreza da alfaiataria ao moletom democrático, a Beira oferece qualidade descomplicada e atual.

 

 

SPFW N.48 | Projeto Estufa – Victor Hugo Mattos

16.10.19 | Semanas de Moda


 

 

Integrando o line up do Projeto Estufa desde a edição n. 46 da SPFW, o estilista Victor Hugo Mattos pode ser considerado um verdadeiro artista em suas criações. Mattos preza pela excelência do handmade, buscando inspirações e materiais em elementos brutos da natureza, o que traz uma atmosfera fantástica ao seu trabalho, em especial nos impecáveis acessórios de cabeça. De olho na sustentabilidade, o designer ainda busca matéria-prima para suas criações em brechós e acervos, o que torna a assinatura de seu trabalho ainda mais peculiar e em consonância com as práticas atuais de reciclagem na moda.

 




 

Nesta coleção Mattos trabalhou suas intervenções criativas em muitas peças tradicionais (garimpadas em diversos lugares), como calças de alfaiataria, blazers, camisas sociais e coletes, que ganharam aplicações em pedraria, franjas, búzios e contas que remetem aos adornos tradicionais das religiões de matriz africana. Telas e redes que formavam camisetas e vestidos dos mais diversos comprimentos injetaram sensualidade à coleção, que explorou a transparência em vários níveis de ousadia. Aqui o trabalho do estilista também parece reverenciar os orixás das águas, em especial pelo adorno de cabeça que complementava um dos vestidos e que lembra bastante àqueles retratados em imagens do gênero. Produções finalizadas com peças metálicas formavam uma espécie de armadura sobre conjuntos de calça reta e camisas fluídas elevando o nível de sofisticação e conceitualismo das composições.

 

 


 

 
Fotos: Zé Takahashi e Marcelo Soubhia

SPFW N.48 | Patbo

16.10.19 | Semanas de Moda


 

 

Criada com o intuito de ser uma vertente mais contemporânea e fashionista do trabalho da estilista mineira Patrícia Bonaldi, a PatBo tem o propósito de trazer criações cosmopolitas e casuais, sem perder de vista a excelência de sua origem, fundada no rico trabalho de alta-costura que fez o nome de Patrícia ser reconhecido mundialmente. Com um resortwear chic, porém possível, a PatBo oferece peças para mulheres de personalidades plurais e gostos diversificados, mas que não abrem mão da sofisticação.

 

 

 

 

Em sua coleção de alto verão, Patrícia criou para a cliente que viaja a destinos de férias badalados e que com poucos ajustes no visual pode circular da praia à piscina e do lounge à vida noturna. A experimentação do seu beachwear fica por conta de recortes estratégicos, mangas bufantes e a utilização de materiais nobres que são pouco comuns a esta parte do closet. Mirando nas festas de fim de ano, a coleção traz belíssimas opções de vestidos brancos trabalhados delicadamente nos detalhes que revelam a silhueta de forma despretensiosa e camisas (por que não?) de design mais urbano. Calças pantalonas de tecidos brilhantes usadas com blusas cropped de mangas sobressalentes formam uma proposta visual simples, porém eficaz na sofisticação sem esforço. Estampas de inspiração nos azulejos portugueses apareceram em vestidos esvoaçantes e maiôs de corte moderno. Blusas e saídas de praia de crochê e em técnica que remete ao macramê mostravam que a veia artesanal da estilista lembrada principalmente pelos bordados, também pode se enveredar para um caminho mais casual, mas não menos sublime.

 

 

 

 
Fotos: Zé Takahashi

SPFW N.48 | Modem

16.10.19 | Semanas de Moda


 

 

Diversas vertentes do universo das artes inspiram o trabalho de André Boffano, diretor-criativo da Modem. Fundada em 2015, a marca veio com o proposito de unir design, arquitetura e artes plásticas na criação de peças simples, porém destacadas por elementos de design modernos, como volumes pontuais, estamparia exclusiva e trabalho manual apurado aliado a tendências tecnológicas do mercado.

 

 



 

Para esta temporada, Boffano propõe um novo olhar sobre as próprias criações da marca ao aliar as peças de arquivo com novas interferências criativas e construções. O tema sustentabilidade também aparece aqui ao explorar a criação a partir do que já existe, especulando novas maneiras de utilização de uma mesma peça ao se adicionar formas e volumes através de técnicas modernas. Aliás, as proporções amplificadas é que ditaram o rumo desta coleção e foram aplicadas em comprimentos mini e sobreposições, além das texturas tridimensionais que apareceram em tricôs elaborados, itens plissados, metalizados e em jacquard. A paleta de cores sóbria imprime ainda mais versatilidade à coleção, que propõe um inverno de feminilidade não óbvia e marcante pelos volumes.

 

 



 
Fotos: Zé Takahashi

SPFW N.48 | Lilly Sarti

16.10.19 | Semanas de Moda


 

 

Os laços afetivos de Lilly e Renata Sarti vão além da esfera familiar e se estendem para o sucesso nos negócios, afinal, as irmãs fundaram, em 2006, uma das marcas mais queridas das paulistanas. A Lilly Sarti tem um DNA leve, sofisticado sem esforço, contemporaneamente cool e belo no sentido mais genuíno da palavra. O estilo da marca se traduz em peças possíveis, despretensiosamente elegantes e de essência versátil, que podem transitar em armários, idades e ambientes diversos.

 



 

 

A coleção de inverno da Lilly Sarti trouxe styling e composições de textura que lembram o trabalho da estilista francesa Isabel Marant, mas com assinatura própria, fiel à linha criativa da marca paulistana. Vimos uma mistura glamorosa de referências da década de 80, principalmente nos ternos com ombros levemente proeminentes ao estilo working girl, com toques disco de perfume 70’s. Além dos vestidos de design delicado e dos conjuntos em alfaiataria de cores intensas na medida certa, percebemos a exploração de um resgate da elegância noturna, onde o visual de inspiração esportiva é trocado por peças sofisticadas e adultas, com jogos de franjas e babados aliados a texturas refletivas – é o retorno da feminilidade cosmopolita. Misturas espertas foram trabalhadas pela marca e vimos blocos de tons quentes e intensos sendo utilizados em um mesmo look, além da composição do peso do veludo aliado a descontração do lurex e do paetê.

 


 

 
Fotos: Zé Takahashi

SPFW N.48 | Fabiana Milazzo

15.10.19 | Semanas de Moda


 

 

O bordado é principal marca da estilista mineira Fabiana Milazzo, que começou sua trajetória em Uberlândia com uma moda festa impecável. O trabalho da estilista ganhou tal visibilidade que sua marca passou a desfilar no Minas Trend, mas o crescimento contínuo demandava voos mais ousados. Desde 2017 na semana de moda de São Paulo, Fabiana expandiu suas coleções para peças mais contemporâneas, mas sem perder a herança do trabalho manual que a deixou conhecida. Hoje, além da fábrica e da loja em Uberlândia, suas criações podem ser encontradas em São Paulo e Los Angeles.

 


 

 

 

Nesta temporada, Fabiana decidiu desacelerar. Em clima campestre e leve, as criações da estilista invocam uma reconexão com a natureza e com nossa própria essência. Shapes menos ajustados, estampas pautadas pela delicadeza dos florais fieis ao campo, a transparência quase ingênua e texturas que ao mesmo tempo que saltavam aos olhos emanavam conforto foram alguns dos recursos usados pela estilista para promover essa viagem bucólica. A cartela de cores começa tão suave quanto a inspiração do desfile e passa para tons solares de rosas e laranjas, chegando à profundidade urbana dos vermelhos e verdes mais escuros e dos terrosos quentes.

 

 


SPFW N. 48 | Projeto Estufa – Korshi e ÃO

15.10.19 | Semanas de Moda


 

 

Criado no SPFW 43, o Projeto Estufa tem como objetivo encontrar e dar visibilidade para novos nomes no mercado que estão repensando conceitos estéticos, meios de produção e formas de consumo de moda. Uma das marcas que faz parte desse projeto é a Korshi, que acabou de se apresentar na SPFW. Criada em 2018, a Korshi inova pelo design inteligente, pensando em roupas que se modificam e podem ser usadas de diversas maneiras apenas com pequenos ajustes. A versatilidade proposta pela Korshi faz com que cada peça seja otimizada por funções estéticas e combinações diferentes, o que, no final das contas, se torna uma maneira eficaz de diminuição de consumo de roupas.

 




 

Tecnologia e sensibilidade para uma estética contemporânea se unem em prol da sustentabilidade – questão urgente e amplamente discutida nessa temporada. Peças tradicionais, como o trench-coat e a saia midi foram repensadas e desconstruídas de modo a transformarem suas funcionalidades comuns, sendo adicionados recortes modernos, elementos de design inusitados e amarrações inovadoras.

 

 

Foi com um conceito de roupas unissex pautadas por cores e volumes que a estilista Marina Dalgalarrondo criou, em 2017, a ÃO. Baseada em São Paulo, a marca possui uma estética moderna, orientada por design excêntrico, texturas tridimensionais e construções modificadoras da silhueta. Suas apresentações são conceituais e unem arte e moda de forma orgânica e muito bem-vinda para o circuito nacional, geralmente mais comedido e comercial. Os volumes teatrais e o styling contemporâneo lembram os trabalhos de Rei Kawakubo e Demna Gvasalia (e nessa temporada ainda tivemos uma nuance de Iris Van Herpen), mas Marina possui assinatura própria e afiada para o futuro, uma visão estética irônica, diversidade honesta e criação habilidosa.

 




 

Nesta apresentação, as criações de Marina continham atmosfera fortemente orgânica e textura ao mesmo tempo fluída e ajustada que fez referência ao efeito da água sobre nossos corpos vestidos. Muito mais do a essência líquida, a ÃO parece ter buscado captar o próprio comportamento da água, caso pudéssemos vesti-la. O efeito ao mesmo tempo belo e impactante foi conseguido através de um hábil trabalho com o látex. Nas cores, os tons terrosos naturais dividiram a passarela com azuis mais suaves e verdes elétricos que trouxeram ainda mais vida à apresentação.

 



 
imagens: Zé Takahashi

SPFW N. 48 | Reinaldo Lourenço

15.10.19 | Semanas de Moda


 

 

Veterano da semana de moda de São Paulo, Reinaldo Lourenço criou sua marca na década de 80 após diversos trabalhos no setor. Com uma linha criativa vanguardista, Reinaldo é um dos estilistas mais experimentais da moda nacional. Sempre de olho no futuro, a marca é uma referência importante para os movimentos que ainda vão acontecer e suas criações possuem design arrojado aliado a um bom gosto extremo.

 



 

 

Um clima fetichista punk dominou o inverno da marca. Chokers de spikes, couro, amarrações, telas, transparência e ilhoses dividiram a passarela com blusas e vestidos extremamente femininos, criando uma dualidade entre referências tão opostas e ao mesmo tempo tão complementares. O trabalho com contrastes também ficou por conta dos calçados robustos que complementavam tanto os looks mais carregados, quanto os delicados. Mix de texturas marcantes traziam riqueza visual ao desfile e camisas, saias e vestidos em laise se misturavam à densidade do couro, à sofisticação da alfaiataria e ao utilitarismo de faixas ajustáveis, zíperes, cintos de pegada militar e tornozeleiras de referência punk. A coleção teve como base principal de cartela o preto e o branco, mas tons vibrantes de rosa, azul e vermelho imprimiram iluminação às criações.

 



 

 

A tradicional estamparia floral do estilista apareceu em tons acesos de vermelho com fundos claro e escuro e foi colocada tanto em conjuntos mais urbanos quanto em vestidos românticos.

 


 

No memorando do desfile, o estilista chama os personagens de suas criações de softpunks, que são punks cultos e educados que misturam os elementos característicos de seu movimento com outros mais suaves e femininos, como golas-rufo, mangas bufantes, rendas e babados associados à realeza de outros séculos. Inocência e malícia se complementam no inverno de Reinaldo Lourenço, que explora conceitos antagônicos como se pertencessem um ao outro de maneira orgânica e longe de efeitos agressivos.

 



 
Imagens: Zé Takahashi

SPFW N. 48 | Bobstore

15.10.19 | Semanas de Moda


 

 

A Bobstore foi criada em 1996 com o proposito de unir a leveza do estilo boho com a sofisticação urbana sem esforço da paulistana. A mistura esperta entre a nobreza da alfaiataria de qualidade e bem cortada com o fator cool do jeanswear fizeram da “Bob”- como carinhosamente é chamada pelas paulistanas – uma das marcas que mais queridas e lembradas do mercado.

 

 


 

O inverno da marca, no entanto, chegou um pouco mais experimental. O estilista André Boffano teve como cenário o movimento artístico abstracionista das artistas Hilma af Klint, Emma Kunz e Agnes Martin, mas suas inspirações foram além da estética e adentraram no lifestyle dessas figuras femininas tão fortes quanto místicas. Mangas com volumes românticos, cortes assimétricos e ombros levemente proeminentes criaram um visual delicado na essência, mas com personalidade nos detalhes, como na mistura de materiais mais pesados com outros fluídos, nas construções alternativas da silhueta – alongada tanto na parte de cima quanto na de baixo, através de formas comedidamente ampliadas e comprimentos estendidos.

 

 


 

 

A ótima cartela de cores injetou ainda mais sofisticação à coleção, que foi apresentada em vermelhos mais suaves, azuis e verdes opacos e terrosos das mais variadas profundidades. A feminilidade da textura plissada aplicada em camisas e vestidos contrasta com a densidade das peças em couro e com a mood utilitário implantado em faixas e cordões ajustáveis, bolsos e fivelas.

 

 


 
Imagens: Zé Takahashi